Origem Divina, Unidade e a Necessidade de Interpretação
A Lei de Deus: Base Imutável da Nossa Declaração de Fé
Para o cristão da Nova Aliança, entender a Lei de Moisés não é apenas um exercício histórico, mas uma chave fundamental para interpretar o Evangelho e compreender a profundidade da graça de Cristo. Vivemos em uma época onde há muita confusão sobre o que da Antiga Aliança ainda se aplica à nossa vida.
Portanto, é crucial reafirmar um dos pilares da nossa fé: Cremos, professamos e ensinamos que a Lei de Moisés, ou Lei do Senhor, é de origem divina.
1. A Unidade do Conceito: Lei de Deus, do Senhor e de Moisés
As Sagradas Escrituras utilizam diferentes expressões para se referir ao mesmo conjunto de mandamentos e estatutos. As expressões “Lei de Deus”, “Lei do Senhor” e “Lei de Moisés” dizem respeito à mesma coisa: o conjunto de documentos e ensinamentos que Deus entregou ao povo de Israel por intermédio de Moisés.
Este documento foi elaborado por uma comissão designada pela Convenção Geral, justamente para trazer o esclarecimento necessário sobre a interpretação desta parte da Bíblia. A correta compreensão da Lei é essencial para entendermos o que a graça fez por nós.
2. A Três Partes da Lei: Moral, Cerimonial e Civil
Para uma análise correta, os estudiosos da Bíblia dividem a Lei de Moisés em três grandes categorias. Essa divisão é mais didática do que intrínseca, mas facilita a compreensão de qual parte foi abolida em Cristo e qual parte permanece:
- A Lei Cerimonial: Refere-se a todos os rituais, sacrifícios, festas religiosas, regras de pureza e o sistema sacerdotal levítico. Seu propósito era tipificar, ou seja, apontar para a obra perfeita de Cristo, o Cordeiro de Deus.
- A Lei Civil: Dizia respeito às regras de convivência social e de justiça que vigoravam exclusivamente para a nação de Israel como um Estado teocrático. Incluía questões de propriedade, crimes, punições e legislação nacional.
- A Lei Moral: É o conjunto de princípios éticos e imutáveis que refletem o caráter santo de Deus. É universal e eterna. O cerne dessa lei são os Dez Mandamentos, que regem a relação do homem com Deus e do homem com o próximo.
Essa separação é vital porque nem toda a Lei foi abolida. A obra de Cristo não veio para anular, mas para cumprir a Lei (Mateus 5:17).
O Fim da Lei: O Cumprimento em Cristo e a Abolição do Cerimonial
3. O Cumprimento em Cristo: A Obra Perfeita do Cordeiro
O debate sobre a validade da Lei de Moisés deve sempre partir da premissa de que Cristo é o centro. Jesus afirmou de forma inquestionável: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogá-la, mas cumpri-la” (Mateus 5:17).
A palavra “cumprir” (pleroo em grego) significa satisfazer, completar, levar à perfeição. Onde a Lei apontava para um sacrifício futuro, Cristo Se tornou esse sacrifício. Onde a Lei exigia a perfeição que o homem não podia entregar, Cristo a entregou por nós. A perfeição de Cristo foi creditada à nossa conta pela graça.
A Abolição da Lei Cerimonial e Civil:
A obra redentora de Cristo resultou na abolição de duas das três categorias da Lei de Moisés:
- A Lei Cerimonial: Seu sistema de sacrifícios, festas e purificações era sombra dos bens vindouros. Cristo, sendo o sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, ofereceu o sacrifício perfeito e definitivo. Ele é o Cordeiro de Deus. Seu sangue substituiu o sangue de bodes e bezerros. Por isso, a mulher, que sob a Lei era considerada impura durante o período menstrual e devia ficar isolada, hoje não vive sob essa restrição. Não estamos mais debaixo da Lei Cerimonial.
- A Lei Civil: As regras governamentais e de justiça civil para Israel, como nação, não vigoram para a Igreja, que é um corpo espiritual e não um Estado teocrático. Não estamos obrigados, por exemplo, às regras de propriedade ou aos castigos judiciais previstos para a nação de Israel.
4. O Fim da Lei: Cristo como Objetivo Final
O apóstolo Paulo é muito claro em Romanos 10:4: “O fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” A palavra “fim” (telos em grego) significa propósito, objetivo final. O propósito supremo de toda a Lei era conduzir o homem a Cristo. A Lei serviu como aio ou tutor (Gálatas 3:24) para nos levar à fé, demonstrando nossa incapacidade de alcançar a justiça pelos próprios méritos.
Quando cremos em Cristo, tivemos acesso à graça de Deus, que é o favor imerecido. A Lei é santa, justa e boa (Romanos 7:12), mas não tem o poder de nos salvar, apenas de revelar o nosso pecado (Romanos 3:20). A salvação, portanto, não é pela observância de rituais, mas pela fé na obra consumada de Cristo.
A Lei Moral e Eterna: Viver sob a Graça com o Caráter de Cristo
5. A Permanência da Lei Moral: O Caráter de Deus e o Crente da Nova Aliança
Enquanto as Leis Cerimonial e Civil foram cumpridas e abolidas em Cristo, a Lei Moral permanece. Ela é a expressão do caráter santo e imutável de Deus, e transcende qualquer cultura ou época. Os Dez Mandamentos são a base dessa lei e, com exceção do mandamento sobre o sábado (que encontra seu cumprimento e significado em Cristo como nosso descanso), todos os outros são reafirmados no Novo Testamento.
O que mudou, então? Não a validade da Lei Moral em si, mas a nossa capacidade de cumpri-la. Sob a Antiga Aliança, o homem tentava cumprir a Lei pela força da sua carne, resultando em falha e condenação. Sob a Nova Aliança, o Espírito Santo habita em nós, capacitando-nos a viver de acordo com os princípios morais de Deus. Não vivemos mais para a Lei, mas vivemos pela Graça, que nos capacita a amar e a cumprir os seus preceitos.
A Lei Moral como Refletor do Caráter de Cristo:
- Não terás outros deuses diante de mim: Reflete o primeiro e maior mandamento de Jesus: amar a Deus acima de todas as coisas.
- Não farás para ti imagem de escultura: Combate a idolatria em todas as suas formas, incluindo a adoração a si mesmo ou a qualquer coisa criada.
- Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão: Exige reverência e santidade para com Deus.
- Honra a teu pai e a tua mãe: Estabelece a importância da família e do respeito às autoridades.
- Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não cobiçarás: Todos esses mandamentos são repetidos e aprofundados por Jesus e pelos apóstolos, mostrando que a moralidade cristã não é menor, mas mais exigente, pois brota de um coração transformado.
6. A Lei do Amor: A Plenitude da Lei Moral
Jesus resumiu toda a Lei e os Profetas em dois grandes mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu pensamento e de todas as tuas forças” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37-40). O amor é o cumprimento da Lei (Romanos 13:10).
A graça de Deus não nos dá licença para pecar, mas nos liberta do poder do pecado para que possamos, pelo Espírito, viver uma vida de santidade. A Lei Moral, portanto, não é um fardo, mas um guia para uma vida que agrada a Deus e reflete o caráter de Cristo.
Conclusão: Viver sob a Graça, Andar na Lei do Espírito
A Lei de Moisés não morreu em sua totalidade. Sua parte cerimonial e civil foram cumpridas em Cristo, mas sua Lei Moral é eterna e continua a nos guiar como um reflexo do caráter de Deus. Não estamos sob a Lei como um meio de salvação, mas sob a Graça como poder para cumprir a Lei do Espírito.


